A programação reuniu conhecimento técnico, troca de experiências
Encontro realizado em Porto União reuniu produtores, especialistas e instituições para discutir nutrição apícola, agregação de valor, profissionalização da atividade e oportunidades de acesso a novos mercados.
Produtores, técnicos e representantes de instituições ligadas à cadeia apícola participaram, na quarta-feira, dia 19 de agosto, do Encontro Regional de Apicultura e Meliponicultura do Planalto Norte Catarinense, realizado no Pesque e Pague Água da Serra, em Porto União. A programação reuniu conhecimento técnico, troca de experiências e discussões sobre os próximos passos para o fortalecimento de uma atividade que possui importante presença econômica e produtiva na região.
Realizado pela Epagri, Molimel – Associação Apícola do Rio Espingarda e Prefeitura de Porto União, em parceria com o Sebrae/SC e com apoio da Cresol, o encontro abordou temas como nutrição apícola, meliprodutos e serviço de polinização. A programação contou com a participação de um técnico responsável da Fischer, que apresentou o sistema de polinização utilizado pela empresa e as possibilidades para que produtores disponibilizem suas colmeias para prestação desse serviço. A programação também abriu espaço para discutir desafios relacionados à profissionalização dos produtores, processamento da produção, agregação de valor e preparação para novos mercados.
Para a gerente regional Centro-Norte do Sebrae/SC, Aglaes Beatriz Meirelles da Silva, o desenvolvimento da cadeia passa pela combinação entre conhecimento técnico, organização dos produtores e visão empresarial. “A região possui uma cadeia com grande potencial, produtores experientes e produtos capazes de alcançar mercados cada vez mais exigentes. O desafio é fazer com que toda essa qualidade também se transforme em valor para quem produz. Quando trabalhamos profissionalização, gestão, produtividade, agregação de valor e acesso a mercados, contribuímos para tornar a atividade mais competitiva e gerar novas oportunidades de renda no território. O Sebrae/SC está ao lado desses produtores e parceiros justamente para apoiar essa evolução”, afirma.

O presidente da Molimel, Laércio Carlos Staciaki, que também representa a Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores de Santa Catarina (FAASC), destacou que o encontro reuniu duas agendas importantes, o encontro dos apicultores da associação e o tradicional Encontro Regional de Apicultura promovido pela Epagri no Planalto Norte. Segundo Staciaki, um dos principais diferenciais para o desenvolvimento da atividade está na articulação construída ao longo dos anos. “A gente destaca principalmente as parcerias. Graças às parcerias, conseguimos crescer cada vez mais”, afirmou. Entre as instituições citadas pelo presidente estão Prefeitura de Porto União, Sebrae/SC, Epagri, Senar e Cidasc, além de empresas privadas que desenvolvem ações em conjunto com a associação.
Outro movimento de fortalecimento da cadeia está relacionado à meliponicultura, atividade dedicada à criação e ao manejo de abelhas sem ferrão. Segundo Laércio Carlos Staciaki, a Molimel atualizou seu estatuto no final de 2025 para incorporar também os meliponicultores à associação, acompanhando o crescimento da atividade e ampliando sua atuação para além da apicultura tradicional. “A meliponicultura é uma cadeia que vem crescendo bastante. Alteramos nosso estatuto e incluímos os meliponicultores para que a associação também possa acolher e fortalecer quem trabalha com as abelhas sem ferrão”, explica. O tema também esteve presente na programação do encontro, especialmente nas discussões sobre meliprodutos e as possibilidades de aproveitamento e valorização dos produtos provenientes das abelhas sem ferrão.
A partir dessa ampliação, a Molimel pretende avançar na estruturação da atividade, com investimentos em equipamentos que possibilitem o processamento dos produtos e sua adequação às exigências de inspeção sanitária. A proposta, segundo Staciaki, é contribuir para que os meliponicultores possam agregar valor à produção, reduzir a informalidade e ampliar a inserção dos produtos no mercado formal. A valorização da meliponicultura também ganhou uma frente voltada às mulheres. No início de 2026, foi formado um grupo de mulheres que, em seu primeiro encontro, optou pelas abelhas sem ferrão como tema para um ciclo de estudos. A iniciativa é desenvolvida em parceria entre a Molimel, Semeadoras do Contestado e Epagri, fortalecendo a participação feminina e a disseminação de conhecimentos relacionados à atividade.
Para Staciaki, a inclusão dos meliponicultores representa uma nova etapa para a associação, que passa a trabalhar de forma mais abrangente com as diferentes possibilidades econômicas e produtivas relacionadas às abelhas, buscando profissionalização, processamento adequado e maior valorização dos produtos no mercado. Assim, a Molimel também vive um momento de estruturação para novos avanços. De acordo com Staciaki, está em andamento um processo para aquisição de novos equipamentos, que deverá ampliar o portfólio de serviços prestados pela associação e contribuir para sua estruturação financeira. Paralelamente, a entidade e seus parceiros começam a direcionar esforços para a preparação da produção com vistas ao mercado internacional.
Produzir bem e avançar na comercialização
O Secretário da Agricultura da Prefeitura de Porto União, Bruno Bordin Lenci, ressaltou as características do território como um dos diferenciais para a produção apícola. A grande extensão territorial, a presença de mata nativa e a disponibilidade de alimento para as abelhas criam condições importantes para o desenvolvimento da atividade. Para Lenci, um dos desafios está justamente em fazer com que o valor gerado pela produção permaneça cada vez mais no território. “O produtor é ótimo para produzir, mas temos dificuldades para vender. Da porteira para fora é um problema. A associação vem se estruturando justamente nessa questão, buscando profissionalização e uma visão empresarial”, destacou. Ele também ressaltou o trabalho realizado para preparar a Molimel para acessar novos mercados. A obtenção do Serviço de Inspeção Federal integra esse processo e abre possibilidades para que a produção avance em direção à exportação. Na avaliação de Lenci, esse movimento tem potencial para beneficiar não apenas Porto União, mas produtores de todo o Planalto Norte.
Região tem potencial para agregar mais valor ao mel
O extensionista rural da Epagri e coordenador de ATER da UGT 4 – Planalto Norte Catarinense, Johnny Fuzinato Franzon, explicou que o Encontro Regional de Apicultura é realizado há mais de dez anos e desempenha papel importante na qualificação e articulação dos produtores. Segundo ele, o Planalto Norte possui produção expressiva de mel, com presença da atividade em municípios como Porto União, Mafra, Itaiópolis, Major Vieira, Monte Castelo, Rio Negrinho, São Bento do Sul, Campo Alegre e Canoinhas. Um dos desafios, entretanto, está em ampliar o processamento da produção dentro da própria região. “Como produto primário, como matéria-prima, nós temos uma grande área e uma grande produção, mas ainda precisamos fortalecer o processamento. Esses eventos contribuem para isso, inclusive por meio do fortalecimento de associações e cooperativas da região”, explicou Franzon. Outro diferencial apontado pelo extensionista é a participação do Planalto Norte na área da Indicação Geográfica do Mel de Melato da Bracatinga. Segundo ele, trata-se de um produto com potencial de agregação de valor, especialmente no mercado externo. A perspectiva de exportação, portanto, aparece como um dos caminhos para ampliar as oportunidades da cadeia produtiva regional.
Nutrição como base para produtividade
O Sebrae/SC também contribuiu diretamente com o conteúdo técnico do encontro. O consultor Ariel Stefaniak conduziu uma palestra sobre nutrição apícola e sua relação com produtividade e viabilidade econômica da atividade. “A nutrição apícola é uma das bases para sustentar uma alta produção. A gente trabalha sempre no viés de tornar a apicultura catarinense uma atividade economicamente viável para o produtor, buscando a profissionalização do apicultor. Para ele ter renda com a atividade, precisa ter uma boa produção, e a alimentação é uma das bases dessa produção”, explicou Stefaniak. A abordagem apresentou aos produtores aspectos que podem fazer diferença no manejo realizado a campo, conectando conhecimento técnico à busca por melhores resultados produtivos e econômicos.
Sustentabilidade e descarbonização na cadeia apícola
A sustentabilidade também esteve entre os temas de destaque do encontro. Leonardo Batistel apresentou o trabalho relacionado ao inventário de emissões de gases de efeito estufa e à descarbonização das propriedades rurais, demonstrando como o diagnóstico pode contribuir para identificar práticas sustentáveis e agregar valor à produção apícola.
Segundo Batistel, o inventário permite realizar um balanço das emissões de gases de efeito estufa geradas pelas atividades e processos produtivos da propriedade. Ao mesmo tempo, são avaliados os sequestros de carbono proporcionados pelo uso e manejo do solo, possibilitando construir um diagnóstico da propriedade sob a perspectiva da descarbonização.
“O inventário consiste no balanço das emissões de gases de efeito estufa que a propriedade possui. A partir desse diagnóstico, conseguimos verificar quais práticas aplicadas nos processos produtivos e nos usos do solo se enquadram como técnicas de descarbonização e mostrar todo esse viés relacionado à sustentabilidade da propriedade rural”, explica Batistel.
O trabalho vem sendo aplicado junto aos produtores ligados à Molimel e permite evidenciar características da apicultura diretamente relacionadas à conservação ambiental. Entre os aspectos considerados estão a conservação da vegetação nativa, o sequestro de carbono associado aos diferentes usos do solo, a conservação da biodiversidade e os serviços ecossistêmicos relacionados à presença das abelhas.
Para Batistel, essas informações também podem assumir importância econômica ao demonstrarem, de maneira técnica, atributos ambientais associados à produção. “Todas as práticas integradas que possuem um viés de sustentabilidade são reconhecidas e podemos utilizar essas informações para agregar valor ao produto. No caso da Molimel, temos a produção de mel como uma atividade com um viés bastante sustentável e, a partir do inventário de gases de efeito estufa, conseguimos demonstrar esses benefícios”, ressalta.